Monges artistas deixaram sua marca não apenas na contrução do mosteiro, mas na espiritualidade beneditina no Centro de São Paulo
O povo brasileiro é comumente conhecido como um povo que possui História, mas não memória. Não se pode negar que somos negligentes com nossos bens culturais. Vale lembrar a loucura da demolição dos casarões dos barões do café na Avenida Paulista nas décadas de 70 e 80 do século XX – até mesmo em 2011.
Surpreendentemente, sabe-se muito pouco sobre o Mosteiro de São Bento de São Paulo. Os monges Beneditinos ali chegaram em 1598, construindo o primeiro cenóbio paulista. Ao longo dos mais de 400 anos de História, foram muitos os acontecimentos naquelas paradas.
O local era a taba do Cacique Tibiriça. Também nele, houve a aclamação popular de Amador Bueno (1584-1649) como rei de São Paulo. Deve-se lembrar ainda, a presença marcante do bandeirante Fernão Dias Paes Leme (1608-1681), benfeitor do mosteiro, que em troca pediu apenas que seus restos mortais repousassem na capela monástica por ele construída. Está lá até hoje.
Fato que marcou profundamente o mosteiro de São Bento paulistano, foi o surgimento de uma lei imperial, na primeira metade do século XIX, em que o governo brasileiro ordenava o fechamento dos noviciados de todas as ordens religiosas existentes em território brasileiro. O mosteiro em São Paulo sofreu consideravelmente com tal ato. De modo que os monges iam envelhecendo, e estes não podendo ser substituídos pelas novas gerações, a decadência indicava o fim iminente. Cogitava-se a tomada do prédio pelo governo, sendo transformado num bem público.
A história, no entanto, é dinâmica. No contexto do caso do mosteiro paulistano, surge a figura emblemática de Dom Miguel Kruse (1864-1929), monge alemão responsável pela restauração da Ordem Beneditina em São Paulo.
Devido às precárias condições físicas do mosteiro, Dom Miguel manda demolir a edificação em estilo colonial, construindo em seu lugar, uma magnífica construção monástica no estilo beuronense, construção atual do cenóbio. Esta é a quarta construção do mosteiro.
Arte beuronense
O estilo beuronense é assim chamado por ter sua origem na Abadia beneditina de Beuron, Baviera, sul da Alemanha. Trata-se de uma escola artística exclusivamente monástica. Os próprios monges são os artistas, lembrados no capítulo 57 da Regra de São Bento como aqueles que devem exercer tais atividades com humildade.
Os fundadores da Escola Artística de Beuron foram os beneditinos Desiderius Lenz (1832-1928) e Jacob Wuger (1829-92), tendo estes, grande apoio do Abade Mauro Wolter e de seu irmão Plácido Wolter.
Características e princípios da arte beuronense:
- A arte é em si venerável e convida o expectador à veneração e à contemplação;
- As obras devem ser anônimas – Capítulo 57 da RB, em que os monges artistas devem ser humildes e não se ensoberbecer. As mesmas obras devem ser feitas com o esforço coletivo, não para glória do artista, mas que “em tudo seja Deus glorificado” (RB 57,9);
- Sinergia total da arte pictórica com arquitetura e a escultura. Todos se unem sendo parte integral de uma mesma obra;
- Imitação sobrepõe à originalidade. As cópias revelam o verdadeiro gênio de artista, uma vez que tais dons são manifestados por sua espiritualidade no traçado em mão livre;
- Geometria estética baseada nas proporções numéricas do Egito antigo;
- A Escola Artística de Beuron engloba pintura, arquitetura, escultura. Foi questionada pela própria Igreja, uma vez que compreende estilos artísticos diversos, alguns deles pagãos: arte egípcia, grega, bizantina, paleocristã e românica. Tal ecletismo gera um surpreendente balé de cores revelando uma harmonia de fulgurante beleza;
- Há indícios de que o estilo beuronense tenha sido influenciado pelos nazarenos, pré-rafaelitas e pelo movimento Arts and Crafts da Inglaterra, dadas as semelhanças entre eles.
A Arte Beuronense no Mosteiro de São Bento de São Paulo
Em vias de restaurar o velho mosteiro de São Paulo, foram convidados para tal intento, os monges beneditinos da Abadia de Beuron, tendo como superior o já mencionado Dom Miguel Kruse.
A cidade de São Paulo vivia um momento de efervescência cultural e transformações das mais variadas. Deixava seu estilo provinciano e colonial e ganhava ares europeizados. Alargamento das avenidas e as construções de imponentes edificações – a maioria importada da França – davam o tom da canção entoada por aqui.
Em comum com a cidade, Dom Miguel e o Mosteiro de São Bento só carregam o espírito de mudança, de transformação.
O projeto do Mosteiro destoa totalmente do projeto a que a cidade seguia. Trata-se de um projeto monástico, trazendo o teor de uma tradição medieval – Arquitetura, música, arte e estilo de vida.
O projeto arquitetônico é do alemão Richard Berndl, notável arquiteto e professor da Universidade de Munique. O estilo arquitetônico escolhido foi o românico, tendo a edificação pequenas influências diversas.
Pinturas, esculturas e demais ornamentos são de autoria do beneditino holandês da Abadia de Maredsous, Dom Adalbert Gressnicht (1877-1956). Este quando estudava no Colégio Santo Anselmo, em Roma ficou responsável pela ornamentação geral da cripta de São Bento em Montecassino.
O então Abade do Mosteiro de São Bento de São Paulo, Dom Miguel Kruse, após admirar a obra de Dom Adelbert em Montecassino, solicitou sua colaboração para desenhar os planos de ornamentação geral da igreja abacial que acabara de construir em São Paulo. O jovem artista deveria consagrar dois anos a este trabalho, mas poucos meses após sua partida estourava a 1ª guerra mundial. O Abade de Maredsous, então, lhe determina ficar no Brasil e executar ele próprio as ornamentações previstas.
Ao todo, foram 10 anos dedicados às pinturas murais da igreja.
Dom Adalbert Gressnicht também projetou os vitrais da Basílica. São eles: Na entrada, Os evangelistas; no transepto, a morte de São Bento no coro dos monges; no altar-mor, a padroeira da Basílica, Nossa Senhora da Assunção.
É curioso notar as imponentes esculturas dos Apóstolos nas colunas ao longo da nave da igreja. Estes não estavam no projeto original. Foram esculpidas em gesso entre os anos de 1919 e 1922 pelo belga Adrian Henri van Emelen (1868-1943), no Liceu de artes e ofícios. São também de sua autoria as imagens da Pietá – numa capela fechada e pouco conhecida -, Sant’Ana e Santa Gertrudes. Estas últimas em capelas laterais da igreja.
No alto do altar-mor encontramos, acima de uma trave, cinco esculturas de tamanhos sobre humanos. Trata-se da cena do calvário (o crucificado, a Virgem Maria e São João). Ladeando a estes personagens encontramos as esculturas em joelhos de Adão e Eva. O conjunto foi construído em 1921 por Anton Lang (1875–1938). Ainda aqui, destacamos a posição do Crucificado – reinante em glória, suplantando o estilo barroco em que Cristo encontra-se em extrema agonia e sofrimento – herança dos tempos medievais.
O altar-mor é de granito vindo do Lago Maggiore, Itália. Na mesa do altar encontramos detalhes em bronze fabricados nas oficinas da abadia de Maredesous e a inscrição “Sacrificatur oblatio munda” (Que em todo o lugar se ofereça uma oblação pura). Seu estilo em baldaquino está sustentado por quatro colunas em pórfiro vermelho da Sibéria, pedra vulcânica utilizada nos túmulos de reis e faraós. No seu topo se vê a cruz e o arado numa única peça simbolizando a oração e o trabalho.
O que restou da antiga igreja na atual basílica são as imagens de São Bento e Santa Escolástica no altar-mor, de autoria de Frei Agostinho de Jesus (1600-1661) - primeiro escultor brasileiro que viveu no mosteiro no século XVII -, um Cristo Crucificado esculpido pelo paulistano José Pereira Mutas, em 1777 e a belíssima imagem de Nossa Senhora da Conceição do século XVIII, num dos altares laterais da igreja
O famoso órgão é de 1954 e possui mais de 6.000 tubos. É um exemplar alemão da Fábrica Walcker com setenta registros reais, quatro teclados manuais e pedaleira completa.
O Opus Dei é o centro da vida monástica. Segundo a Regra de São Bento, o Monge deve dividir seu tempo entre oração e trabalho – Ora et Labora. O órgão então representa o louvor do monge, a oração cantada, o Ofício Divino. As duas colunas são representadas por estes dois aspectos da vida do monge: As colunas representam a oração e o trabalho daqueles que vivem no mosteiro. Na parte superior às colunas encontramos em dourado um dos versículos bíblicos mais importantes na vida do monge: Trata-se de um fragmento do Salmo 118, em latim. “Sucipe me domine secundum eloquium tuum et vivam; et non confundas me ab expectatione meam” (Recebei-me, Senhor, segundo a Vossa Palavra e viverei; e em minha esperança não me decepcioneis). Este versículo expressa a entrega total do monge no dia de sua profissão monástica. Há ainda, a tribuna da consola, dividida por onze caixotões entre pequenas colunas em carvalho. Em cada caixotão encontra-se a inscrição Pax (Paz) – primeira divisa da Ordem Beneditina.
À entrada nos deparamos com a belíssima porta de carvalho, rico trabalho de entalhe com as principais festas litúrgicas do ano.
A Basílica é um ousado projeto. A arte é percebida do chão ao teto. O piso lembra os trabalhos dos cosmatescos romanos, em diversas formas geométricas e cores variadas. Detalhes mais primorosos encontraremos na fantástica capela do Santíssimo Sacramento, local mais rico em detalhes devido sua importância. Seu piso é elaborado em mosaico e introduz o fiel a adoração – Venite Adoremus.
O Mosteiro de São Bento de São Paulo é a única construção no mundo totalmente construído no estilo beuronense. A única, no sentido de um complexo beneditino com esta magnitude, abrigando a Basílica Abacial, o Mosteiro – morada dos monges e clausura -, o tradicional Colégio de São Bento e a Faculdade.
Lembremos, principalmente, que a reforma beneditina em São Paulo era espiritual e material (construção física) e expressava estes aspectos, muitas vezes identificados pelo zelo da liturgia e o canto gregoriano.
Os detalhes são muitos, e a simbologia também. O pouco já apresentado dá para valorizar de um modo diferente esta joia beneditina do Centro de São Paulo.
Ir. João Baptista Barbosa Neto, OSB


Magnífico!
Um clima de cultura mesclado com arte medieval renascentista nos envolve ao apreciarmos esta biblioteca beneditina…
Fez-me lembrar a narrativa de Umberto Eco em O NOME DA ROSA(SEC.XII)…
Haveria também algum mistério aí – labirintos subterrâneos, livros apócrifos – bem no centro de São Paulo ?…rs
Sinto sede! Gostaria de poder passar horas, dias, sorvendo lentamente as preciosidades contidas nessas estantes.Já tenho até os títulos que me atraem…
Irmão João Batista, Parabéns! O trabalho que realiza na divulgação da riqueza do Mosteiro é digna dos maiores encômios! Marins
Prof. Marins,
É sempre uma alegria partilhar sobre tais riquezas. Como tenho acesso a documentos e sempre a curiosidade habita em mim, não custa nada apresentar aos demais tantas maravilhas.
Obrigado pelo carinho!
Ir. João Baptista, OSB
Irmão João Batista,
Sou de Porto Alegre e após uma visita ao Mosteiro fiquei impressionada com a beleza e tenho procurado ler e ver todas as imagens que encontro. Este seu material foi o mais completo e rico que encontrei, os detalhes históricos do seu texto foi muito didático e elucidador. Gostaria de saber mais a respeito do relógio, não encontrei documentação sobre ele.Ele é do período da sua construção? A maquina é de pendulo? Tenho muita curiosidade.
Obrigado Elisabete
Prezada Elisabete,
fico feliz pelo interesse sobre o assunto.
o maquinário do relógio é de pêndulo e da data da inauguração da Igreja, 1922.